{"id":1576,"date":"2023-04-20T05:51:26","date_gmt":"2023-04-20T03:51:26","guid":{"rendered":"https:\/\/residence-secondaire.eu\/?p=1576"},"modified":"2023-05-10T15:57:55","modified_gmt":"2023-05-10T13:57:55","slug":"residencia-lisboa-dia-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/residence-secondaire.eu\/en\/residencia-lisboa-dia-3\/","title":{"rendered":"RESID\u00caNCIA LISBOA : Dia #3"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mouraria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Rua do Benformoso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>14\u00baC<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>As pessoas n\u00e3o vivem, sobrevivem<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Batem \u00e0 porta. \u00c9 o Nuno Franco, 64 anos, Mediador Comunit\u00e1rio. Conhece a Mouraria como ningu\u00e9m. Faz parte da terceira gera\u00e7\u00e3o, tendo vindo para c\u00e1 em 1978 morar com uma av\u00f3 vi\u00fava. Na mesma casa, arrendada pelo seu av\u00f4 em 1911, nasceu o seu pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo de d\u00e9cadas que acompanha a vida do bairro. Em 2008, ajudou a fundar a <em>Associa\u00e7\u00e3o Renovar a Mouraria<\/em> com o objectivo de defender direitos sociais e humanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Conta, orgulhoso:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A In\u00eas \u00e9 a M\u00e3e. Eu sou o pai.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tira do bolso do colete um pequeno caderno onde aponta com rigor os detalhes do seu dia-a-dia. O registo cont\u00e9m nomes, idades e moradas embora, na realidade, sejam desnecess\u00e1rios; o Nuno sabe-os de cor. O seu trabalho, ao servi\u00e7o da Junta de Freguesia, \u00e9 percorrer diariamente o territ\u00f3rio do bairro e garantir o acompanhamento, principalmente, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais idosa. Ao mesmo tempo que sinaliza e encaminha situa\u00e7\u00f5es de debilidade econ\u00f3mica e social, ajuda a combater a solid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhece o peso emocional do seu trabalho e compara-o \u00e0 batalha de um m\u00e9dico que luta para salvar o doente. Ao fim de 15 anos, conta-nos, aprende-se a gerir a tristeza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00e1 perdi 335 pessoas. Se come\u00e7o a sofrer, deixo de conseguir trabalhar<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sa\u00edmos de casa. O Nuno \u00e9 o nosso cicerone. Todos lhe merecem uma palavra de apre\u00e7o ou um desabafo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Na rua, um rapaz de quem n\u00e3o sabemos o nome, dizia:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A minha voz n\u00e3o \u00e9 minha, \u00e9 dele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No r\u00e9s-do-ch\u00e3o de um edif\u00edcio devoluto, avistamos a entrada de uma das duas mesquitas da Mouraria. \u00c0 porta, uma parede forrada com pequenos cubos, potenciais recipientes de centenas de pares de sapatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntamos se podemos entrar. Descal\u00e7amo-nos e subimos meia d\u00fazia de degraus. Ao longo de uma parede vemos uma s\u00e9rie de pontos de \u00e1gua. Aqui se fazem as ablu\u00e7\u00f5es: lavam-se os p\u00e9s, as m\u00e3os e a cara. Libertam-se as impurezas para poder abra\u00e7ar a espiritualidade. Estamos em pleno Ramad\u00e3o, \u00e9poca de jejum, e sentimos no ar um distinto cheiro a especiarias. Uma cozinha improvisada prepara j\u00e1 o <em>iftar<\/em> que, imediatamente ap\u00f3s a ora\u00e7\u00e3o do in\u00edcio da noite, consolar\u00e1 600 pessoas. Ter\u00e3o de organizar quatro turnos. A mesquita n\u00e3o tem espa\u00e7o para todos ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Oferecem-nos comida &#8211; n\u00e3o aceitamos. Apesar da boa inten\u00e7\u00e3o, e da genu\u00edna hospitalidade, n\u00e3o nos parece adequado comer enquanto os anfitri\u00f5es jejuam. Dentro do templo, numa sala modesta coberta de tapetes vermelhos debruados a azul, uns oram enquanto outros dormem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Despedimo-nos calorosamente e de cora\u00e7\u00e3o cheio. Convidam-nos a regressar na hora da refei\u00e7\u00e3o. Prometemos tentar comparecer em breve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Continuamos o nosso caminho. Pelas ruas conhecemos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frankie \u2013 Propriet\u00e1rio do Bomercado, um estabelecimento de produtos biol\u00f3gicos e diet\u00e9ticos naturais. Acredita nos benef\u00edcios da alimenta\u00e7\u00e3o vegetariana e macrobi\u00f3tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dipa \u2013 Nepalesa, funcion\u00e1ria de um restaurante. Tenta ajudar uma colega gr\u00e1vida &#8211; copeira no mesmo estabelecimento &#8211; a encontrar alojamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cApartamento T2 \u2013 Renda 1600\u20ac mensais.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Arif \u2013 Mo\u00e7ambicano com passaporte portugu\u00eas, nascido antes de 1974. Propriet\u00e1rio de uma perfumaria h\u00e1 31 anos, \u00e9 testemunha viva das transforma\u00e7\u00f5es do bairro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegamos \u00e0 <em>Associa\u00e7\u00e3o Renovar a Mouraria<\/em>. Sentamo-nos em c\u00edrculo e escutamos a Rita, a Lara e a Larissa falarem do seu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se ontem se nos alteraram os olhos, hoje transformou-se-nos o esp\u00edrito. Ao terceiro dia de imers\u00e3o na Mouraria as emo\u00e7\u00f5es v\u00eam \u00e0 tona e tudo deixa de ser indiferente. O conforto da dist\u00e2ncia deu lugar a uma incompreens\u00e3o e incredulidade. Talvez seja do cansa\u00e7o que o corpo j\u00e1 sente, dos testemunhos de desespero ou da apropria\u00e7\u00e3o que fizemos deste espa\u00e7o que come\u00e7amos a tomar como nosso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todas as mudan\u00e7as trazem ansiedades. Esta n\u00e3o \u00e9 excep\u00e7\u00e3o. Sentimos uma esp\u00e9cie de dor de crescimento, apesar de sabermos que em breve regressaremos \u00e0 rotina de cada um. Se ontem \u00e9ramos turistas na nossa terra, hoje sentimo-nos parte de uma comunidade e, com ela, partilhamos as ang\u00fastias das assimetrias e as injusti\u00e7as que a vida lhe traz. No fundo, sentimos. Sentimos na alma peda\u00e7os da vida de toda esta gente. Sentimos com intensidade, como o p\u00e9 descal\u00e7o sente as imperfei\u00e7\u00f5es das pedras do ch\u00e3o e, pisando uma mais pontiaguda, rasga a pele num golpe de carne e de sangue.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 no escuro h\u00e1 transcend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mouraria Rua do Benformoso 14\u00baC . As pessoas n\u00e3o vivem, sobrevivem. . 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